Open Science Repository Sociology

doi: 10.7392/Sociology.70081923


O rural no urbano, uma coexistência pacífica e conflituosa mas necessária


Joaquim Muchanessa Dausse Nhampoca

Universidade Eduardo Mondlane, Faculdade de Letras e Ciencias Socias, Departamento de Sociologia, Moçambique


Abstract

Numa era em que as cidades moçambicanas têm estado a registar um fluxo migratório desusado [1], resultante não somente do movimento campo-cidade (êxodo rural), como também de movimento pendular das zonas periféricas da cidade, torna-se imperioso estudar a influência desses movimentos no lugar de chegada (cidade) e possíveis consequências.

As repetidas viagens feitas, pelo autor, às principais cidades capitais de Províncias moçambicanas, para outras missões, criaram um interesse e curiosidade em analisar a visível coabitação entre o rural e o urbano. Neste artigo pretendemos discutir aspectos ligados ao estilo de vida, comportamentos e atitudes dos indivíduos face à cidade, olhando para os valores e características físicas rurais que coabitam de forma pacífica e conflituosa mas necessária, com a cidade.

O trabalho recorre à revisão da literatura e trabalho de campo para sustentar determinadas posições. Quanto à revisão de literatura, procuramos abordar as várias teorias ligadas à sociologia, em particular as da sociologia urbana, com destaque aos autores da Escola de Chicago. No que concerne ao trabalho de campo, apenas traremos um leque de imagens fotográficas retiradas nas cidades de Maputo e Beira, que procuram retratar aquilo que no nosso entender corresponde à coexistência pacífica entre o rural e o urbano. Para melhor nos situar no assunto, começamos por discutir os principais conceitos, referimo-nos a: rural, urbano, campo, cidade, conflito e darwinismo social. De seguida, a abordagem teórica, os espaços rural e urbano, breve análise situacional e a conclusão.

Keywords: coexistência nas cidades, cultura rural, cultura urbana, Moçambique, sociedade.



Citation: Nhampoca, J. M. D. (2013). O rural no urbano, uma coexistência pacífica e conflituosa mas necessária. Open Science Repository Sociology, Online(open-access), e70081923. doi:10.7392/Sociology.70081923

Received: January 2. 2013.

Published: February 3, 2013.

Copyright: © 2013 Nhampoca, J. M. D. Creative Commons Attribution 3.0 Unported License.

Contact: research@open-science-repository.com



Introdução 

Rural é um termo ligado ao tradicional, ao não desenvolvido, a agricultura, não urbanizado, campo, etc. Segundo o dicionário universal da língua portuguesa (2001), o rural é relativo ao campo ou à vida campestre. Portanto, o rural seria o não urbanizado, o não desenvolvido, ligado à actividade agrícola, criação de gado e um determinado estilo de vida. Campo, seria, dentre vários significados, o que o dicionário oferece, extensão de terreno mais ou menos plano, ordinariamente cultivável e pouco arborizado; região mais ou menos afastada dos grandes centros onde os habitantes se dedicam à agricultura e criação de gado.

Em Sociologia, como afirma Baptista (1999), o rural aparece como uma tipologia explicativa e não reificadora das realidades concretas. Para nosso propósito, consideramos o rural como um meio que congrega elementos distintivos que dão forma a maneira de ser e estar dos indivíduos, influenciando a sua acção. Aqui, defendemos a ideia de que determinados hábitos e costumes são eminentemente urbanos ou rurais. Isto faz-nos recordar os tempos de menino, quando rotulávamos os outros de nhatchecas [2]. Alias, podemos recorrer ao conceito de socialização urbana [3]. 

O urbano, por sua vez, é o contrário do rural, arriscando, diríamos, que é o campo transformado pela acção antrópica, graças ao desenvolvimento da ciência e da técnica; referimo-nos em última instância à cidade. Recorrendo ao dicionário de língua portuguesa, corresponde a um complexo demográfico formado, social e economicamente, por uma importante concentração populacional não-agrícola, ou seja, que se dedica a actividades de carácter comercial, industrial, financeiro e cultural. Quanto ao conceito de conflito, tal e qual discutido por Marx, na sociedade industrial capitalista, ele é resultado da propriedade dos meios de produção. Marx olha para esta sociedade dividida em classes, a burguesia e o proletariado (onde a burguesia detém os meios de produção e o proletariado vende a sua força de trabalho). Nesta relação antagónica, ocorre uma interdependência que segue uma lógica própria.

Na perspectiva do nosso trabalho, analisamos o conflito como a oposição e fricção existentes entre dois modelos de vida diferentes, cada um com seus valores e dinâmicas. Por exemplo, a luta entre a Polícia Municipal e os vendedores de rua, em nome da manutenção da ordem e postura camarária, o combate ao fecalismo ao céu aberto, os assentamentos informais, por aí em diante.  

Por último, o conceito de darrwinismo social. Este vem de darwinismo usado na teoria biológica desenvolvida pelo naturalista inglês Charles Darwin. Segundo esta teoria, apenas os indivíduos mais aptos conseguem sobreviver na luta pela vida e transmitir à sua descendência as características inatas favoráveis, possibilitando, assim, à sua espécie, evoluir e adaptar-se ao meio. Portanto, o darwinismo, teoria da selecção natural, aplicada à sociedade, dá origem ao darwinismo social (Dicionário de Economia e Ciências Sociais, 2001).   


Abordagem teórica

Para uma melhor abordagem do fenómeno em estudo, optamos pelas teorias de urbanismo, com destaque para a Escola de Chicago (Park e Wirth), a perspectiva da nova ecologia humana (Catton e Dunlap) e, por último, a análise mais recente de urbanismo trazida por Harvey e Castells. 

O estudo dos fenómenos urbanos exige, indubitavelmente, a análise e abordagem da sociologia urbana e, uma referência quase que obrigatória das ideias de Robert Park, do qual resgatamos a ideia de “teia da vida”, cujo princípio activo é a «luta pela existência», em que os sobreviventes encontram os seus «nichos» no âmbito físico e na divisão do trabalho entre as diferentes espécies (Hannigan, 1995:26). Aqui, há que questionar a integração dos “vientes” do meio rural e a luta que travam para a sua sobrevivência num ambiente urbano, onde a solidariedade mecânica referida por Durkheim, baseada na semelhança e na consciência colectiva, é substituída pela diferença e consciência individual. Que consequência isso traz para a acção e atitude dos indivíduos no seu contacto e convivência com a cidade? 

Para Wirth, citado por Giddens (2010), o urbanismo como modo de vida preocupa-se menos com a diferenciação interna das cidades do que com o urbanismo como forma de existência social. Giddens, afirma, ainda, que a teoria de Wirth é importante porque reconhece que o urbanismo não é apenas parte da sociedade, mas exprime e influencia a natureza do sistema social mais global (Giddens, 2010:577). É esta influência ao sistema social que constitui uma mais-valia na nossa abordagem, na dualidade estilo de vida urbano vs rural.

Em Catton e Dunlap, buscamos a nova ecologia humana que incide sobre a interacção entre o ambiente físico, a organização social e o comportamento (Hannigan, 1995). Aqui nos interessa compreender como é que os habitantes da cidade, os ditos citadinos e os “vientes” do meio rural (campesinato) se comportam e qual é a sua atitude face à cidade e ao meio físico. Como se diz por aí, “ as luzes da cidade atrapalham”.

Harvey e Castells, trazem uma nova abordagem nas teorias do urbanismo. Na perspectiva de Harvey citado por Giddens (2010), o urbanismo é uma das características do meio ambiente criado que a expansão do capitalismo industrial produziu. Portanto, no mundo moderno, a indústria torna pouco clara a divisão entre a cidade e o campo. Para Harvey, o espaço no mundo moderno é permanentemente reestruturado (Giddens, 2010:578). À semelhança de Harvey, Castells, salienta que a forma espacial de uma sociedade está intimamente relacionada com os mecanismos gerais do seu desenvolvimento. A disposição e as características arquitectónicas das cidades e dos arredores exprimem lutas e conflitos entre os diferentes grupos da sociedade (Giddens, 2010:579).  

Este cenário mostra a existência de uma luta renhida e contrastante entre o comércio informal, a emergência de edifícios construídos com material convencional e obedecendo os preceitos urbanísticos e uma proliferação desenfreada de assentamentos informais e precários, produzindo uma textura ímpar de desigualdades sociais sintomáticas de pobreza.

Vale, neste contexto, a capacidade de cada indivíduo de se impor face a estas adversidades da vida, ignorando as normas sociais, jurídicas e administrativas e criando, assim, a imagem actual das nossas cidades [4].


Viver no campo e o contacto com a cidade

Como nos referimos anteriormente ,o campo pressupõe o tradicional: extensão de terra, actividade agrícola, criação de gado, um estilo de vida e laços sociais baseados na semelhança, na consciência colectiva (maneiras de ser e estar comuns a sociedade), habitação distante uma da outra, representando um conceito de vizinhança diferente do da cidade. 

No contexto moçambicano, o campo foi ao longo do tempo marcado por diferentes cenários e períodos, destacando-se a era pré-colonial, a colonial, pós-independência, durante a guerra civil e pós guerra civil. Na era pré-colonial, a sociedade moçambicana estava organizada em clãs, tribos, reinos e chefaturas. Estas comunidades dedicavam-se à agricultura, pastorícia, caça e recolecção, como a história nos ensinou. Este sistema de organização social sofreu uma transformação com a integração de Moçambique na economia- mundo. Com a colonização, surge o imposto de palhota, a prática da agricultura empresarial (as companhias majestáticas), o Xibalo, o indiginato, a figura do assimilado, etc. Os chefes tradicionais passaram a ser a extensão da administração colonial no processo de dominação. A relação campo-cidade passa a ser de fornecimento de matéria-prima para as indústrias e a mão-de-obra barata. 

Após a independência, no campo, através das políticas do socialismo e os grandes projectos de desenvolvimento, surge a colectivização, com a criação das machambas estatais, lojas de povo e aldeias comunais. O campo foi transformado em fonte de matéria-prima e produção de alimentos para as indústrias e população da cidade, respectivamente [5]. A relação campo-cidade começa a ser uma relação de interdependência. Há todo um apelo de instalar as indústrias junto à fonte de matéria-prima.

Durante a guerra civil, as actividades agrícola, criação de gado e as relações sociais no campo entraram em crise. Os grandes projectos agrícolas (Complexo Agro-industrial de Angónia) e industriais não são concluídos, como a têxtil de Mocuba. A população, fugindo da guerra, busca abrigo na cidade. 

No período pós guerra civil, verifica-se, na nossa opinião, um florescimento das actividades desenvolvidas no campo, como a agricultura e a criação de gado. Contudo, as sequelas da guerra, a pobreza rural circunscrita na falta de meios, infra-estruturas sociais e económicas, alimentação, etc. fizeram com que se massificasse o êxodo rural, catapultado pela  mobilidade de transportes:

  • É possível prognosticar que, terminada a guerra, a migração rural/urbana se incrementará, a qual tornará mais crítico o problema ambiental das zonas urbanas, assim tal como a insuficiência e falta de manutenção de infra-estruturas de abastecimento de água e de saneamento, sistema de recolha de lixo, poluição atmosférica entre outros (GDM, 1995:13). 

A introdução de novas políticas com o objectivo de desenvolver o campo, como o FARE [6] (Fundo de Apoio à Reabilitação Económica), Fundo de Desenvolvimento Distrital (FDD), abre uma nova página na história do campo (agora no contexto de Distrito); começa a emergir a proliferação de barracas (como na cidade), criação de serviços de hotelaria, carpintaria, mecânica, electricidade, telefonia fixa e móvel, a televisão, etc. Estes artefactos da modernidade acabam tornando o campo uma extensão da cidade:

  • É importante resgatar a ideia de campos urbanos, referida por Baptista (1999), citando autores como Rémy e Voyé ( 1974 e 1992 ), para falar de campos transformados pela tecnologia, que permite planear a produção agrícola, em face a formas variadas de mobilidade das suas populações tradicionais e das recentemente aí instaladas, e ainda face a novas concepções de conforto, longínquas das privações camponesas doutros tempos (Baptista, 1999:284) 


Breve análise situacional

O contacto com a cidade, de forma massiva, deve ser analisado a partir do pós-independência. Neste período, a população rural toma a cidade como fruto da independência, cujo slogan, na altura, era “libertamos os homens e a terra” [7]. Mas o que isso constituiu para a infra-estrutura urbana? O que significava o uso da energia eléctrica, da água canalizada, das escadas dos edifícios, das sanitas, cozinha, etc.? 

Aqui há que considerar a mobilidade campo-cidade e consequentemente o aumento da densidade populacional nas cidades. Esta avalanche não é acompanhada por outras componentes de suporte. Portanto, a fome, a nudez, o analfabetismo, etc. criam condições para busca de alternativas. Nascem nas grandes cidades as cooperativas de consumo, COGROPA (Comércio Grossista de Produto Alimentares), Zonas verdes da Cidade (no caso da Beira foi criado o Gabinete das Zonas verdes), os Dumba nengues [8]  ou Txunga moyos [9]: 

  • "Depois da independência, a população urbana cresceu rapidamente; em 1980, 13% da população total era urbana, considerando somente 12 cidades, sendo a média em África de 27%. Em 1990, o país, contando com 23 cidades, a sua população foi estimada em 21% e, em África, estimou-se 32% (Ibraimo cit. por GDM, 1995:12). Esta rápida urbanização provocou a transferência do campo para a cidade, de hábitos da população rural, o que contribui para a rápida ruralização da cidade (GDM, 1995:12)". 

O período da guerra civil aparece como um elemento estruturante e que dá corpo ao actual cenário das cidades moçambicanas, onde se exacerbam os assentamentos informais e o aumento da densidade populacional. Terminada a guerra, com a reabertura das estradas, a mobilidade dos transportes, há, na nossa opinião, uma intensificação do êxodo rural. Os desníveis campo/cidade, a pobreza, a procura de melhores condições de vida, de trabalho, educação e o reencontro familiar criam uma nova paisagem de culturas e humana nos centros urbanos: 

  • A expansão das cidades é uma consequência do aumento da população, bem como da migração de pessoas das zonas rurais, aldeias e vilas. Esta migração tinha frequentemente um carácter internacional, com as pessoas das áreas rurais a mudarem-se para as cidades (Giddens, 2010:574).

Os centros urbanos transformaram-se num grande atractivo, não importando o estilo e a qualidade de vida que os já citadinos e “vientes” do meio rural possam levar. Conta, no entanto, o novo status e o significado social que isto representa na zona de origem. Vezes sem conta, dizemos, sou de Maputo, vivo no Maputo, acabo de chegar de Maputo, tudo isto com o intuito de marcar diferença mostrando uma mobilidade social ascendente (superioridade). Esta visão e a imagem que vai sendo projectada de Maputo ou Beira, enquanto cidades de referência, vai de algum modo contribuindo para a densidade populacional, com as zonas peri-urbanas mais concorridas, acomodando construções desordenadas, e os centros urbanos padecendo do fenómeno das “Dependências” e “Terraços”, como alternativa à habitação. 


A coexistência vs conflito

A oposição entre a cidade e campo não é, porém, senão uma face da realidade, pois os citadinos e os rurais formam, em certos aspectos, uma única sociedade. Têm em comum uma mesma cultura, pois partilham das mesmas crenças e das mesmas distracções. Participam de um mesmo mercado económico, no qual trocam os produtos de suas actividades complementares (Mendras, 1969:35-36). Como refere Giddens, a ideia base é de que os progressos tecnológicos, conduzindo a novos fluxos comunicacionais e informações, permitem a manutenção de relações à distância, em função daquilo a que se tem chamado a compressão espácio-temporal (Giddens cit por Pereira, 2005). 

O campo e a cidade estão cada vez mais próximos, com a telefonia móvel, a televisão, a rádio (incluindo a comunitária) e a mobilidade dos transportes; os campesinos vão sendo infestados de artefactos da modernidade que a capacidade de compra os transforma em actores sociais activos e participativos destas invenções. Por sua vez, os citadinos não escapam aos aspectos da tradição que transformam em algo exótico, contribuindo para o aspecto estético, por exemplo, salões de festas cobertos de capim, candeeiros, cadeiras, mesas e vários outros objectos feitos de palha. Por outro lado, podemos nos referir ás cerimonias tradicionais vulgo Ku phalha, no lançamento ou inauguração de uma obra pública:

  • Na cidade encontramos o rural ideologicamente reconstruído e valorizado: em jardins e outras zonas de lazer, mas também em espaços de agricultura biológica; e o tradicional, (re) produzido em bares e casas ‘tipicas’. Encontramos, também, o moderno, em lugares apetrechados de símbolos e referências globais, dos quais os cibercafés ou as exposições mundiais itinerantes constituem apenas dois exemplos. E, finalmente, na cidade encontramos ainda o estranho e o exótico, protagonizados por ‘tribos urbanas’, pelas novas seitas religiosas ou por comunidades imigrantes (Pereira, 2005:140).

A  olhar para o contexto actual das nossas cidades, podemos arriscar em dizer que a coexistência entre o rural e urbano é inevitável. Isto porque as nossas cidades carregam consigo as duas características (rural e urbano). 

Como nos diz Baptista (1999), o processo de urbanização não é somente “a acção da cidade sobre o campo nem o acréscimo da população das cidades pela vinda dos rurais, mas a invenção de um modo de vida em vias de se tornar universal e de realizar a unidade do homem social” (Baptista, 1999:284). Ainda Baptista (1999) olha para as dicotomias cidade-campo como a distinção naturalizada pela observação quotidiana e urbano/rural tipologia explicativa e não reificadora das realidades concretas. O autor conclui dizendo que podemos ter cidades classificáveis como dominantemente rurais e campos marcadamente urbanos. 

Quanto ao conflito, como a oposição e fricção existentes entre dois modelos de vida diferentes, cada um com seus valores e dinâmicas, poderíamos nos incidir sobre todo um conjunto de comportamentos e atitudes reprováveis e não-consentâneos à vida da cidade, por exemplo, urinar nas árvores, murros e paredes, o fecalismo ao céu aberto, a bazarização dos passeios, cozinhar e vender comida ao relento, atear fogo e depositar lixo fora dos contentores, etc.

Os comportamentos alistados acima podem ser vistos na perspectiva do indivíduo, isto é, a acção e lógica que utiliza. Quando se urina nas árvores ou nos murros há sempre uma justificação, a falta de sanitários públicos. O indivíduo é ciente da sua acção e a pratica de forma deliberada sabendo que está fazendo mal. Alias, faz se escondendo no murro ou na árvore ou então procurando zonas escuras ou de penumbra. 

Quando se disponibilizam os sanitários públicos ou em locais onde haja sanitários, a justificativa é sempre a falta de dinheiro para pagar, mesmo que seja um valor simbólico. Aqui, fica o vício de tudo grátis.

A outra perspectiva é estrutural, cabendo às instituições ou autoridades de tutela. Se não, vejamos, como se pode conceber ou instalar uma lanchonete que vende refrigerantes, comidas e bebidas alcoólicas sem uma casa de banho. O que se espera de uma garagem transformada em salão, papelaria, loja, etc.

Ao longo da marginal, quer da Beira, quer de Maputo, tornou-se moda a venda de bebidas alcoólicas, comidas, etc., contribuindo em nada para o meio ambiente e para a salubridade.

A remoção das areias nas dunas aparece como um outro problema ambiental, sem expressão ou significado para as comunidades que têm nesta prática a sua fonte de rendimento e sustentabilidade. Se não vejamos:

 “Tenho 7 filhos e não trabalho. Tiro areia (na praia) para vender e dar de comer aos meus filhos” [10]. 

A cidade como uma construção social congrega uma variedade de pessoas com hábitos, costumes, crenças e maneira de ser e estar diferentes. Estas componentes da cultura influenciam e estruturam as relações sociais que se estabelecem no meio urbano. A mesma cidade, vista em relação a posição do indivíduo no mercado e com a mercantilização das relações sociais, ela (a cidade) aparece como um elemento que concorre para a exclusão social.

Seja como for, a relação entre o rural e urbano é útil e necessária, na medida em que o campo precisa da cidade para o seu desenvolvimento, para entrar em contacto com os artefactos da modernidade e, a cidade precisa da matéria-prima, dos produtos alimentares, do ambiente de sossego, do contacto com a fauna e a flora, que o campo oferece. Portanto, trata-se de uma relação simbiótica.

No contexto real das nossas cidades, que vem registando um aumento da densidade populacional, degradação das suas infra-estruturas, como consequência da falta de manutenção, má utilização e problemas ambientais, como a erosão; a emergência de novos edifícios, emprestando uma beleza invejável às cidades, não nos restam muitas alternativas se não definir medidas concretas e por em prática as já existentes.

De forma mais grosseira, poderíamos dizer que a cidade e viver na cidade representa custos, quer para as autoridades Municipais, Governamentais, Instituições Públicas e Privadas, indivíduos e famílias. Logo, a cidade não é e não está para todos, mas pode ser para todos e podemos visitá-la, como diz Pujadas (2005), a cidade aparece como um objecto de estudo associado ao sofrimento, ao desassossego e a frustração ou rebelião.  

O campo, é e pode ser para todos nós, de forma solidária. Aqui, o darwinismo social, ou por outra, a luta pela sobrevivência e o conflito comportamental com a modernidade que caracteriza a cidade parece-nos  ainda ser incipiente.  


Considerações finais

Ao longo deste trabalho, procuramos discutir aspectos ligados ao estilo de vida, comportamentos e atitudes dos indivíduos face à cidade, olhando para os valores e características físicas rurais que coabitam de forma pacífica e conflituosa mas necessária, com a cidade.

A cidade vista como advento da modernidade representa um estilo de vida, com cunho ocidental, que estrutura todo um conjunto de relações sociais, económicas, culturais e políticas. Ignorar o conceito de cidade e sua forma pode constituir um perigo e um risco no estado actual do desenvolvimento das sociedades.

Os nossos comportamentos influenciam sobremaneira, a nossa relação com a cidade e a imagem que ela nos oferece e podemos criar. A componente ambiental e a sua sustentabilidade dependência não somente das forças da natureza mas também da acção do Homem sobre ela. Referimos-nos, no decurso do trabalho a comportamentos como urinar nas árvores e a extracção de areias nas dunas, o que periga a saúde e protecção costeira as consequências ambientais ainda são maiores se olharmos para os danos ao ecossistema.

A relação rural/urbano não é e não pode ser vista de forma isolada e parasitosa, mas sim de forma relacional e simbiótica. O conflito existente é necessário e é inerente a estrutura e características específicas dos dois meios. Apesar da influência do urbano no meio rural e da industrialização e terciarização deste último, o campo, assim como as zonas periféricas da cidade (com tendências mais rurais), resguardarão as suas características distintivas; sendo a cidade um meio com características mais individualistas (capitalistas) e de exclusão social por excelência, e o campo mais colectivista e menos excludente.

Todavia, a melhoria das condições de vida, da população e a criação de infra-estruturas sociais e económicas, bem como o desenho de políticas e incentivos, como são os casos do Fundo de Desenvolvimento Distrital e o Fundo de Redução da Pobreza Absoluta nas zonas periféricas da cidade e no meio rural, podem de certa maneira, contribuir para a melhoria da imagem da cidade através da redução dos movimentos pendulares e o êxodo rural, o exemplo disso, é a cidade desértica aos domingos. 


Notes

[1] No censo de 1997, a população urbana era de 29.2%, no de 2007, correspondia a 30.4. Em 2011, a população era de 23.049.621, sendo 31% urbana.

[2] Indivíduos cujo comportamento feria com as boas maneiras e atitude face ao “moderno”. As moças que não sabiam ler, escrever e falar correctamente a língua portuguesa, usar a casa de banho, a maneira de vestir, etc. O moderno era visto na perspectiva da cidade em oposição ao tradicional. Portanto, as nhatchecas presumia-se que viessem de um meio remoto ou suburbano e que precisavam de ser urbanizados.

[3] Socialização urbana, conceito desenvolvido por Guy Barbichon, dá-nos conta das possibilidades objectivas de alterar a vida quotidiana dos instalados nas grandes cidades, sem que elementos perpetuados das suas lógicas sociais tradicionais sejam definitivamente afastados (Baptista, 1999:285). 

[4]  Se, para George H. Mead (1967), a cidade constitui um ente patológico, acometido de uma permanente desordem social, gerada pela incapacidade do sistema para assumir o crescimento constante e a diversidade cultural e de estilo de vida de que são portadores os novos urbanitas, para Simmel (1950), a cidade é geradora de patologias ao nível individual, criando o sujeito blasé, desconectado e sem identificação com o seu ambiente social imediato, isto é, incapaz de se inserir positivamente no seu meio. Para Durkheim (1976,1982), essa patologia social, especificamente urbana, é a anomia (Pereira, 2005:31). 

[5]  Não descuramos a ideia da instalação das indústrias junto às fontes de matéria-prima, como são os casos das fábricas de descasque de arroz de Conhane e as de processamento de carne e leite de Lionde (Distrito de Chokwé). Ver o Plano Prospectivo Indicativo.

[6] O FARE é criado pelo Decreto 20/92, de 5 de Agosto e resulta de uma recomendação constante da Lei n° 15/91, de 3 de Agosto, que manda criar uma instituição do Estado que coordene de forma unitária o destino e utilização das receitas provenientes da privatização e alienação das empresas do Estado.

O objecto desta nova instituição foi o de apoiar o processo de reactivação da economia, através de financiamentos a actividades produtivas e de prestação de serviços, criação de emprego e inovação, promoção e dinamização do empresariado nacional, em especial, o de pequena e média dimensão, etc. 

[7] Ver discursos de Samora Machel.

[8] Dumba nengues são Mercados informais (paralelos). A expressão é Ronga para dizer confie no pé (largamente conhecida e entendida na zona sul do País pelos falantes de Ronga, Changana e Matsua).

[9] Txunga moyos são Mercados informais (paralelos). Expressão Ndau, para dizer tenha coragem, coração de pedra. Também entendida e expressa pelos falantes da língua Sena. Foi vulgarmente usada na zona Centro com incidência para a cidade da Beira.

[10] Depoimentos passados num canal de Televisão, proferidos por uma cidadã na cidade da Beira, numa reportagem acerca da erosão costeira, junto ao desaguador das Palmeiras.

References

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7. Ibraimo, M. A. (1994). Crescimento da População Urbana e Problemas da Urbanização da Cidade de Maputo, UPP- CNP apud GDM (1995). Relatório Nacional de Moçambique sobre o Desenvolvimento Social. Maputo.

8. Mendras, Henri (1969) “Sociologia do Meio Rural” in Queiroz (org) Sociologia Rural, Rio de Janeiro, Zahar Editores. Pp. 41-63. 

9. Mendras, Henri (1969) “A Cidade e o Campo” in Queiroz (org) Sociologia Rural, Rio de Janeiro, Zahar Editores. Pp. 33-40

10. Pereira, Inês (2005). A Cidade em Movimento: protestos urbanos e espaços de contestação in Fórum Sociológico, n° 13/14, 2ª série, Instituto de Estudos e Divulgação Sociológica, pp.137-149 

11. Pujadas, Joan (2005). Cidades acolhedora: Transformações urbanas, imaginários e factores sociais contestação in Forum Sociológico, n°13/14, 2ª série, Instituto de Estudos e Divulgação Sociológica, pp. 31-46.

12. Queiroz, Maria (1969) “ Introdução: por que uma sociologia dos grupos rurais?” in Queroz (org) Sociologia Rural , Rio de Janeiro, Zahar Editores, Pp. 7-32.

13. FARE

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Nhampoca, J. M. D. (2013). O rural no urbano, uma coexistência pacífica e conflituosa mas necessária. Open Science Repository Sociology, Online(open-access), e70081923. doi:10.7392/Sociology.70081923

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Nhampoca, Joaquim Muchanessa Dausse. “O Rural No Urbano, Uma Coexistência Pacífica e Conflituosa Mas Necessária.” Open Science Repository Sociology Online.open-access (2013): e70081923. Web. 3 Feb. 2013.

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Nhampoca, J.M.D., 2013. O rural no urbano, uma coexistência pacífica e conflituosa mas necessária. Open Science Repository Sociology, Online(open-access), p.e70081923. Available at: http://www.open-science-repository.com/o-rural-no-urbano-uma-coexistencia-pacifica-e-conflituosa-mas-necessaria.html [Accessed February 3, 2013].

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1. J. M. D. Nhampoca, O rural no urbano, uma coexistência pacífica e conflituosa mas necessária, Open Science Repository Sociology Online, e70081923 (2013).

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1. Nhampoca, J. M. D. O rural no urbano, uma coexistência pacífica e conflituosa mas necessária. Open Science Repository Sociology Online, e70081923 (2013).


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